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Durante
minha infância o fado acompanhou minhas refeições, principalmente
o jantar, uma mesa farta e colorida: sopas, legumes cozidos, carnes
coradas, ensopadas e alguns doces. O forte em minha casa, não eram
os doces, eram as sopas. A cerimônia de comermos um primeiro prato
antes do jantar ficou na minha mente como a escultura de um cardápio
fixo. Se não houvesse sopa o jantar não estava completo.
Era
quase um ato religioso só se falava depois da sopa “nós os
pequenos" já recebíamos os pratos prontos com a quantia
que cada um devia sorver com sacrifício ou não. Os olhares se
cruzavam e muitas vezes, a tola vontade de rir do nada aparecia. O
olhar severo de meu pai refletia censura ou limitava o silêncio, o
riso, os casos; e o “não quero esta sopa”.
Aprendemos
a gostar de sopa, a valorizar o bem estar seguido de uma morna
preguiça vinda da mistura saudável de caldos e legumes. As frias
noites do interior de Minas Gerais eram aquecidas assim, com sopas
portuguesas impostas no inicio desejadas por fim.
Pensando
em toda esta alegria e bem estar que a sopa me trouxe, vou dar para
vocês a receita original escrita pela minha avó.
Caldo
verde – Receita original datada de 1954
Ponha
ao lume uma panela com água suficiente para o numero de pessoas que
deseja dar de jantar. Deite-lhe uma porção de sal, meio quilo de
batatas descascadas para cada 4 pessoas e deita-se-lhe 6 colheres de
azeite de oliveira, deixando ferver bem até as batatas estarem
desfeitas.
Depois
passam-se as batatas por para um passador e ralam-se de maneira que
elas fiquem em massa e torna-se a juntar ao caldo onde continuaram
depois de ter provado bem o mesmo e esteja bem de sal, deixa-se
ferver até a hora do jantar. Cinco minutos antes de se servir é
que se lhe deita a hortaliça, que deve ser feita somente de couve
portuguesa e deve ser migada o mais fina possível, depois de bem
lavada, deita-se lhe dentro, deixando ferver só 5 minutos,
servindo-se assim verdinha e gostosa. Há quem goste de lhe juntar
bagos de arroz, pequenas cebolas inteiras ou um bom pedaço de paio,
o que não deixa de ser muito agradável.
A
ingênua maneira de contar como ela fazia esta sopa sempre me
encantou, por isto hoje divido com vocês, amantes da tradição
gast13ômica, se cansados da comida empacotada, saiam do normal,
divirtam-se, voltem ao passado e na primeira noite fria façam um
caldo verde da vovó.
Chef
Isaura
Caliari |